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A história do bolo de barro
Bolo de barro
...senti o cheiro do bolo, corri para o forno, tirei as brasas, depois à forma e comecei a chorar de emoção.

Quando eu era pequena, morava no Araribá.
Lá eu cuidava de meu avô Luiz Jesuíno de Oliveira, mais conhecido como Luiz Gago, um italiano alto de pele clara, cabelos pretos de olhos bem azuis como o mar, faleceu com 109 anos. Ele que gostava de sentar em uma pedra no quintal da mamãe (Tiana Luiza) para “tomar” sol. Para chegar lá ele usava um “cacetinho” (bordão). É que o sol aliviava o reumatismo que tinha. Depois de cuidar da casa, punha água no fogão de lenha para ferver e sentava ao seu lado para ouvir suas experiências, seus causos, histórias que ele conhecia. Uma delas me chamou muita atenção.

Contou-me que há muitos anos na região era comum as fazendas de café, cana, banana. A fazenda tinha muitos “camaradas”, alguns ainda eram escravos. Esses camaradas eram responsáveis por toda a família e quando um deles morria, toda a família era despejada da fazenda. Um destas famílias é protagonista desta história.

Quando ficou viúva, a mulher de um camarada teve que sobreviver a beira de uma trilha fora da fazenda, começou construindo uma casinha de taipa, ao redor uma pequena roça, tudo a beira de um riacho pequeno. Os filhos (que eram três) catavam frutas e lenha para a mãe, como não tinham outra opção, se sentiam bem com a forma que viviam.

Mas algo mudou para mãe quando a filha mais nova lembrou-a de seu aniversário. Já que quando o pai estava vivo fazia ao menos um bolinho. A mãe começou a pensar como ia atender a filha, que não tinha nada, nem para comer. O desespero começou a bater na mãe e aumentava quando se aproximava da data do aniversário. No meio do mato, ligada apenas por um riacho e uma trilha, como conseguir ingredientes para atender a menina?

Na manhã do aniversário a mãe acordou mais cedo. Lá fora começou a chorar bem baixinho, colocou a água para ferventar, cortou a cana para “virar no escaçador” (moenda de cana feita de cilindros de madeira fixados ao chão). Triste e sentida ela passava a mão no forno e lagrimas desciam de seus lindos olhos. A saudade do marido também apertava. Mas o que fazer para atender a filha? Mesmo triste ela pediu a Deus que a atendesse e começou a rezar para a Sua mãe (peça a Mãe que o filho atenderá).

Seus lábios molhados de lágrimas e suas palavras doces a Nossa Senhora conduziam a mão ao chão fazendo um monte de barro que foi colocado numa forma velha e depois no forno do fogão de lenha. Parada em pé olhando o que havia feito, pensou: “Não tenho farinha, mas ao menos um bolo de barro à minha filha”. Ouvi palmas na frente da casa, era uma senhora de cor, simples e muito bonita, disse que não tinha nada para oferecer. Ela só queria água, quando fui buscar ela pediu para ir ao fundo da casa que lá havia uma bica de água muito mais fresca. Como ela sabia?

Quando fui com ela ao fundo da casa, ela me questionou sobre um cheiro de bolo. Fiquei assustada, pois achei que ela me “engabelava” (enganava) com aquela conversa. Mas eu senti o cheiro do bolo, corri para o forno, tirei as brasas, depois à forma e comecei a chorar de emoção.

Na minha mão o tão sonhado bolo de aniversário de minha filha. Corri atrás daquela senhora que sorrindo me respondeu sem eu perguntar. Mas como? Eu não tinha nada. Ela me disse que a farinha foi a minha fé, os ingredientes foram as minhas lágrimas e o recheio foi a minha esperança. “Filha, por tudo que você passou nunca perdeu a fé e esperança, e em lágrimas quis atender quem mais ama por isso Ele te atendeu”.

De joelhos ouvi que era mesmo um milagre. Era Nossa Senhora, que a pedido de seu filho vinha atender ao pedido de minha filha. “Peça a Mãe que o filho atenderá”, dizia meu avô. Dizem que a filha nunca soube de fato quem realmente lhe dera o bolo que a fez tão feliz naquele dia. O filho mais velho conseguiu ter seu próprio lote de terra e cuidou da mãe até sua morte. Mas uma pergunta ficava no ar quando tudo parecia perdido, que também serve para todos nós.
Aliás como vai o seu bolo?

Rozalia Luiza do Prado dos Santos
é artesã, costureira e moradora do Sertão da Quina


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