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Lagoinha antiga: sangue, café e aguardente
Lagoinha antiga
Foto de 1952 mostra os 4 pilares do que teria sido a primeira fábrica de vidro da America

Como se fosse um roteiro de filme ou documentário, as visitas aos patrimônios abandonados do litoral norte são cheios de mistérios, dúvidas e surpresas. Quem visita estes locais tem plena certeza do valor dos objetos, sons, sabores e construções instalados nos rincões e praias de nossa região. A praia da Lagoinha esconde muitas histórias do desenvolvimento do país em cima do sangue alheio. O lugar abrigou a primeira fabrica de vidros da América Latina e um solar: a do velho engenho do Barão João Alves Silva Porto, de um proprietário que não tem seu nome citado, depois o Capitão Romualdo.

Em 1818, dez anos depois da vinda da família real as terras brasileiras, a Vila de Ubatuba recebia mais imigrantes fugindo das guerras. As grandes áreas adquiridas por estes estrangeiros logo se transformaram em grandes cultivos de café, chamados na época de ouro verde ou ouro negro.

Ubatuba foi um dos primeiros a cultivar o café no Estado de São Paulo. Sua origem ainda é discutível, mas existe referencia no livro de Lita Chastan - “Caiçaras e Franceses” de um João Alves que teria vindo de Nantes - França, chegando aqui em 1828, teve como ocupação inicial ser agregado de Lecoq e Recher. Nos anos de 1829/30 não consta mais seu nome nos maços da população.

A fazenda foi um exemplo de fazenda colonial próspera, na época a de maior esplendor econômico da cidade que aproveitava o bom porto de escoamento de produção Valeparaibana e Ubatubana de aguardente, açúcar mascavo, milho. A propriedade se firmava como um dos pólos exportadores de café, que também cultivava açúcar e aguardente. Ela ensinava também as novas técnicas para a fabricação de açúcar e produção de carvão.

Lagoinha antiga
Antiga roda de moinho

O engenho e o solar foram construídos a mando do engenheiro francês João Agostinho Stevené, que foi proprietário da Fazenda Brejahimirinduba (Maranduba). O engenho ajudava na valorização dos produtos que eram embarcados para a Europa. Como havia a demora e um valor muito alto para embarcar e engarrafar aguardente, o barão resolveu buscar um especialista para montar uma fábrica de vidros, a princípio garrafas.

A Fazenda era dividida em duas atividades: produção-beneficiamento e fábrica. Apurados informações sobre o funcionamento da fábrica, muitas pistas apontam que ela não foi concluída, outras informam que ela foi construída, mas nunca funcionou. Outras dizem que funcionou apenas para testes, as garrafas haviam ficado em poder do barão em sua cota particular.
Existem vestígios da extração de areia para o fabrico do vidro no bairro da Maranduba. Um dos lugares já foi até um lago piscoso. Hoje, atendendo a especulação imobiliária foi aterrado e tem ruas e casas sobre o seu antigo leito, entre os fundos do Abel Sat até a Rua 16 e 17 na Maranduba. Também existem vestígios de um “monturo”, um monte de sobras de vidros, em frente ao Camping Clube do Brasil, no sopé da montanha.

Tudo leva a crer que a referida fazenda era dividida em três subsedes: a frente era chamada de Bom Retiro, os fundos que fazem divisa com a Fazenda Corcovado era chamada de Bom Descanso e o outro lado e ao fundo que fazia divisa com a Fazenda Brejamirinduba era chamada de Fazenda Poço dos Bagres. No Sertão da Quina, no Sitio Santa Cruz, existem marcas da antiga fazenda, como os de uma roda d’água, um terreiro de café e um local onde foi enterrado um “benzedeiro”.
O Barão fez fortuna primeiro com o tráfico negreiro e depois com o cultivo das terras. No local desembarcavam negros e voltavam carregados com café, que eram plantados em toda a encosta. Uma pequena estrada de terra ligava por entre a mata virgem a Bom Retiro a Fazenda Poço dos Bagres, antigo trecho compreendido hoje os bairros do Ingá e Sertão da Quina. O trecho compreendia na subida íngreme de um morro, tentou-se então cavar um túnel para transpor este obstáculo, como o tinha muito Granito Verde Ubatuba, desistiram. Muitos pés de café podem ser ainda encontrados na mata e em propriedades rurais ao sopé de nossas montanhas.

Base da origem das primeiras comunidades da região sul

Lagoinha antiga
Imponente parede do solar contruído por um engenheiro francês

A sede, o solar era rodeados por arvores frutíferas, como jabuticabeiras que denunciam ter um pomar a seu entorno, pode-se observar pés de flores de vários aromas, talvez para fazer alguma “água de cheiro” para o banho da sinhá. O barão era um homem rude, desumano com seus escravos. Segundo a lenda, um deles na tentativa de se livrar dos chicotes, inocentemente untou o corpo com óleo e rolou na areia branca da praia, cobrindo o corpo todinho de sílica branca e pura. De encontro ao seu feitor disse com todas as letras que livrasse seu pai dos castigos, pois a partir daquele momento era um homem branco e merecia mandar em si próprio.

O infeliz, dentro de sua ingenuidade, não sabia o que lhe esperava, o barão mandou-o para o “couro”, apanhou tanto que morreu dos sangramentos decorridos pela surra. A natureza se manifestou ao ver tanto sofrimento, ela fez florescer lírios do brejo com suas flores branquinhas como as areias da praia que havia untado o corpo do escravo, até hoje se vêem lindos em cheirosos lírios no lugar.

Entrar no couro era uma expressão comum nas fazendas de café e cana. No caso da Lagoinha, o negro era amarrado de bruços numa roda ligado ao eixo do engenho, impulsionada pela água desviada por um túnel do rio Lagoinha. Em outra roda eram amarrados tiras de couros que, em movimento, batiam nas costas do escravo até matá-lo. Os que fugiam do sofrimento, eram capturados por “capitães do mato” no Morro do Foge (Sertão da Quina). Este nome foi por conta das armadilhas preparadas para capturar os fujões. No local, onde passa hoje o rio Maranduba, existe uma garganta entre duas montanhas onde eram cavados poços profundos, onde sua boca eram cobertos de folhas, camuflando a armadilha. Muitos caiam e sumiam dentro das armadilhas, por isso Morro do Foge.

Na fazenda era proibido o romance entre brancos e negros, qualquer envolvimento era imediatamente interrompido e o castigo, nada mais do que a morte. Com a falta da aproximação amorosa entre brancos e negros, o local não teve nenhum remanescente para contar história.

Lagoinha antiga
Base das primeiras comunidades da região sul de Ubatuba

Com a Lei de Euzébio de Queiroz em 1850, cai drasticamente o número de escravos na fazenda. Anos depois a viúva do barão vendeu a fazenda e o novo proprietário tratava rudemente o restante dos escravos. Só quando a fazenda foi adquirida pelo Capitão Romualdo os negros tiveram tratamento digno, este chegou a convidar varias vezes seus escravos a sentarem a sua mesa para compartilhar uma refeição.

A produção era compartilhada, uma espécie de meieiro, até cemitério ele havia construído aos negros. Com a construção da ferrovia do planalto ao litoral sul de São Paulo muitos proprietários abandonaram sua posses deixando aos moradores antigos. Muitos familiares destes detinham posses centenárias de pequenas propriedades, chamados de pequenos fogos, que se transformaram nos moradores tradicionais (agricultores e pescadores) que conhecemos.

A atividade de tráfico e trabalhos forçados em Ubatuba só acabou em 1888. Por volta de 1857, depois da Lei Euzébio de Queiroz, começou a surgir as pequenas propriedades vindas da Fazenda Bom Retiro, esta data coincide com o surgimento de uma vila mais ao sul, a Vila de Santo Antonio de Caraguatatuba. Lagoinha então tem a mesma idade de Caraguatatuba.
Os fogos da época compreendiam o que hoje conhecemos de Praia do Perez, Bonete, Fortaleza, Ingá, Sertão da Quina, Tabatinga e Lagoinha e viviam exclusivamente da roça, do artesanato, da pesca, da criação e da caça. Vale lembrar que no mesmo período, também vieram pra cá trabalhadores da fazenda dos Ingleses, que junto com os que aqui estavam fundaram estes lugares. Houve a intenção de construir uma igreja e a escola dos padres da Ordem dos Laterenenses em frente as ruínas da fabrica de vidros.


Visualizar Pilares da Lagoinha em um mapa maior

Alguns nomes foram citados por antigos moradores como Benedito Felipe (Bidico), Antonio Mesquita (Antonio Pão), João Prado, o casal Jacinto e Bernardino, Porfírio, João Souza e um senhor negro de nome Rodolfo, que morava ao lado da barra da Lagoinha. Claro que depois desta publicação, leitores nos informarão de outros atores desta história. As ruínas foram confeccionadas com areia do rio e sua junção foi feito através da mistura de óleo de baleia e conchas moídas, que produziam a cal, as pedras eram retiradas dos rios e montanhas da antiga fazenda. O responsável pela construção das ruínas foi o senhor João Santana Nunes, conhecido na época como João Pedreiro, ele seguramente deve ser tetravô de algum leitor com mais de 75 anos.

Moradores que nos deram os nomes nos lembram de episódios de saques e roubos em terras das antigas fazendas. Corsários aportavam na baia da Maranduba e buscavam ouro, prata e libras esterlinas enterradas próximas as fazendas, para isto saqueavam tudo, agrediam e estupravam as mulheres, matavam os homens, ateavam fogo as casas e depois faziam festa para lado de Santo Antonio (Caraguatatuba). Muito embora pareça mentira, existem publicações de piratas saqueadores em nosso litoral como o pirata Thomaz de Cavendish. Mas não só do mar vinham os saqueadores, durante anos o terreno foi mutilado e cavado centenas de vezes na busca de algum valor.

Dizem que muito ouro foi retirado do local, também das proximidades da barra da Maranduba. Existem comentários que tiraram muito ouro do lado esquerdo do solar, retirado debaixo de uma laje retangular de pedra que tinha cerca de 800 quilos e media 1metro e meio por dois metros, debaixo de meio metro de terra. O local ainda sobreviveu de bananais e do fabrico de carvão, a prova são os fornos em meio a cipós e plantas tropicais em todo o entorno da montanha.

EZEQUIEL DOS SANTOS
Colaboração de Michael Swoboda


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