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O dia em que Cunhambebe fugiu
Vocês são loucos, estou há mais de quatrocentos anos cuidando da minha maldição pra me vingar de vocês e agora vejo que não preciso mais me lixar com isso. Vocês mesmos sabem se arrebentar sozinhos.
"Vocês são loucos, estou há mais de quatrocentos anos cuidando da minha maldição pra me vingar de vocês e agora vejo que não preciso mais me lixar com isso. Vocês mesmos sabem se arrebentar sozinhos."

Cacique Cunhambebe

5 de maio de 2008 às 14,30 horas, nesse dia e nessa hora Cunhambebe fugiu. Foi embora de Ubatuba. Largou tudo e deu no pé!

Nunca poderia imaginar que isso fosse acontecer. Eu ia andando pelo centro em direção ao calçadão quando vi o velho índio. Parecia que mais ninguém o estava vendo. Vinha todo torto, tropeçando nas pessoas, chutando as bicicletas jogadas na calçada, não sabia por onde andar.

De repente deu de cara com um carrinho de lanche que ocupava toda a calçada e pulou para a rua. Foi o que bastou. Duas bicicletas vindo em sentidos opostos junto ao meio fio, uma com uma mulher e duas crianças e outra com um sujeito forte e mal encarado trombaram com ele sem dó. Pegaram o índio em cheio. As crianças quase caíram e a mulher teve um ataque histérico. Gritava muito. O homem mal encarado apenas xingou, mas disse em voz bem alta todos os palavrões que aprendera no inferno. Ninguém ligava, nem para o índio, nem para a cena.

Conseguindo se safar, o cacique penetrou no calçadão, logo ali no começo em frente ao antigo Banespa. Deu uns dez passos e parou. Ficou estático e aterrorizado. Aqueles dois que haviam trombado com ele na rua parece que tinham se multiplicado. Era uma imensa multidão mal vestida, mal encarada e milhares de bicicletas por todo lado. Largadas pelo chão, amontoadas junto aos trambolhos que chamam jardineiras, amarradas nos postes, nas portas das lojas. E no meio disso tudo vendedores de bugigangas, de doces, ervas esparramadas sobre uma lona no meio de um dos poucos caminhos que sobraram.

Refeito do choque o índio se enfiou por aquela bagunça em direção ao mar que avistou ao longe através da praça da Igreja. Travou novamente quando chegou ao fim do calçadão. As coisas ficaram piores. Foi puxado para o meio de uma roda de gente por um sujeito que engolia vidros. O cara queria que ele o ajudasse a mostrar ao distinto público como engolir cacos de vidro era fácil até para um índio. Deu um safanão no desabusado, saiu do meio da roda e deu de cara com duas viaturas da polícia estacionadas bem no meio do calçadão, do lado do grupo que olhava o engolidor de vidros.

Alguém gritou: “péraí índio, fugindo do que?” Um policial sem saber do se tratava, mais que depressa segurou o fujão. Do meio da multidão se ouviu: “é isso aí seu guarda, prende esse índio, eles só aparecem por aqui pra vender palmito e tomar cachaça.” E um outro gritou: “e ficam vendendo mandioca também, num sabe que é proibido? Pra cortá palmito e plantá mandioca tem que cortá o mato e esses índio finge qui num sabe qui é proibido cortá o mato, prende ele seu guarda.”

Sem entender nada do que estava acontecendo o cacique falou que não queria vender nada, que só queria ir até o mar e pegar sua canoa. Aí sim é que a coisa pegou. Apareceu um sujeito com cara verde e disse que ele podia esquecer a canoa, canoa serve pra pescar e isso assusta os peixes e eles não voltam mais. E não é só canoa, disse ele, não pode também sair com barcão ou lancha, nada pode. E arrematou: “aqui em Ubatuba não pode cortar o mato, fazer casa nova, plantar mandioca, pescar. E passear de barco também não porque por aqui não pode ter lugar para desembarcar. Aqui só pode fazer cocô. Quanto mais, melhor. Quanto mais perto dos rios, dos riachos e das praias melhor, pode fazer o quanto quiser. Você, sua família, seus amigos, o pessoal que vem do Vale, todo mundo pode.”

Ouvindo isso o cacique Cunhambebe se enfureceu. Endureceu a fisionomia, empinou o corpo assumindo uma posição arrogante e extremamente agressiva e bradou: “vocês são loucos, estou há mais de quatrocentos anos cuidando da minha maldição pra me vingar de vocês e agora vejo que não preciso mais me lixar com isso. Vocês mesmos sabem se arrebentar sozinhos. De tanto fazer asneiras e inventar regra errada no lugar errado vocês não sabem mais viver com a natureza e isso vai acabar com ela. Sem ela não vivo nem morto, vocês que se lixem, tô fora. Fui!”

Sumiu, nem se despediu de mim que o encontrei no meio da História e com quem conversei tantas vezes. Daqui em diante arrumar esta cidade está por nossa conta, será que vamos conseguir?

Crônica de Renato Nunes
08/05/08


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