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Gente da nossa história:
Orzília Maria de Jesus, um exemplo de luta e de fé

Orzília Maria de Jesus
Orzília Maria de Jesus
(1939 - 1999)

Exemplo de pessoa guerreira, trabalhadora e religiosa foi desta personagem. Ela pode ser o modelo ideal de mulher batalhadora que pode, sem sombra de duvida, representar o sofrimento e a vitória das mulheres de uma época, que cuidavam da roça, da casa, dos filhos e do marido com muita fé, mas naquela fé verdadeira, sem shows e negócios para a conquista. Nossa personagem nasceu no dia em que Ubatuba festeja seu aniversário.

Ela apareceu para o mundo no dia 28 de outubro de 1939, filha de Moisés Ferreira dos Santos e Maria Nunes do Prado. Seu pai foi combatente da revolução de 1930. As lembranças da guerra deixaram marcas profundas neste homem, que ficou emocionalmente abalado com os horrores que presenciou. Seu trauma fez com que por muito tempo vivesse isolado do convívio social. A família é natural da Vargem Grande (Serra Acima) e sempre viveu em “taperas” abandonadas, ou naquelas construídas em local quase inacessível. O casal teve os filhos Olívia, Antonio, Orzília, Maria, Geralda e Lurdinha.

Orzília sempre morou em casas simples daquelas que tinham camas de varetas de madeira do mato forrada com folhas de guaricanga e de bananeiras. Quando criança, para ajudar no sustento da família aprendeu a tecer balaios e a fazer esteiras. Fazia ainda travesseiros recheados com flor de marcelinha do mato, que eram levados para Ubatuba para vender. Com aos “Contos de Réis” que conseguia, comprava alguns mantimentos como o sal e a querosene. Recordava com emoção de sua avó, que aos domingos a acordava de madrugada para socar alguns gomos de cana para adoçar a água do café, que era “fraquinho”, tipo água de batata como dizem. O café era para família quebrar o jejum, que muitas vezes era “intirume” (puro, sem acompanhamento). O café servia para escorar o estomago (matar a fome). Depois enfrentavam uma longa caminhada da Vargem Grande até o centro de Ubatuba para enfim assistir a uma missa.

A caminhada era difícil já que vinham descalço e muitas vezes chegavam molhados do orvalho da madrugada que estava na trilha. A fé que era marca registrada deste povo. Todo esse ritual era motivo de orgulho e satisfação, as crianças então, mesmo cansadas, era quem mais se divertiam. Na época a missa era em latim e de costume o padre a conduzia de costas para os fiéis. Mesmo não entendendo muita coisa Orzília aproveitava para rezar o terço, isto com apenas nove anos de idade.

Em 1960, frei Vitório Fantini sabendo que Orzília era devota de Nossa senhora Aparecida indicou e entregou o diploma de admissão à Pia. União das Filhas de Maria, orgulho para as famílias, principalmente a esta mulher de fé que foi atuante até sua morte. Como verdadeira devota que era chegou a ir a pé ao Santuário Nacional.

Em 1965 muda-se para a Pedra Preta no Sertão da Quina e lá fez muitos amigos, já que eram conhecidos dos moradores da região por conta das trilhas entre o planalto e o litoral. No ano seguinte conhece um senhor viúvo do Araribá. Era Sebastião Jesuíno de Oliveira, que junto do seu irmão Salvador também pediu a mão da irmã da Orzília a Geralda. Os dois casais casaram-se na mesma data e os primeiros filhos nasceram no mesmo dia, uma a meia noite e outra ao meio dia. As duas tem o primeiro nome igual: Maria, em homenagem a mãe de Deus.

Na época antes do casório, foi uma sobrinha de oito anos de Sebastião que levou uma carta sobre a possibilidade de romance até Moisés pai de Orzília. Deu resultado. Com o casamento a família de Orzília muda-se para o Araribá. Da união nasceram Maria, Gilberto e Cristina. Ela também considerou seus filhos Benedito e Luiz que foi fruto do primeiro casamento de Sebastião.

Embora sofrida, ela foi mãe presente, mulher generosa, parceira fiel, esposa exemplo e cidadã dedicada. Seu sorriso mostrava uma avó de coração grande. Tinha como marca registrada os abraços calorosos e cheios de ternura. Adorava cantar musicas de igreja, contar histórias e estórias e ria quando estes tinham desfecho engraçado. Parecia que o mundo a rodeava. Sábia no quesito chás e remédios caseiros. Era aconchegante sua casa de taipa, de chão de barro batido, do fogão a lenha e da lamparina acesa. Após o jantar era comum todos sentarem na soleira da casa para a reza do terço, depois em um momento de descontração ela contava os “causos”, que por vezes era de arrepiar.

Quem via aquela mulher, por vezes sentia ter uma vida de pura tristeza, mas quando ria o mundo se transformava, aquele semblante de vida sofrida era substituído por um de criança. Sua voz, que rezava e passava os ensinamentos, que cantava a Deus e Nossa Senhora foi calada no dia 13 de julho de 1998. Ela sofreu um grave problema. Um tumor na tireóide levou sua voz. Ela passou por uma cirurgia complicada e começou a se alimentar por uma sonda. Embora sofrida Orzília não se desesperou, manteve sua fé inabalável, sua crença firme e sua religiosidade forte. Mais não foi só isso um câncer deixou seu corpo mais debilitado, mas sua fé permaneceu dura como uma rocha. Podia não ter certeza do resto, mais de sua fé e da sua religião tinha certeza do que fazia. Ela sabia que Deus não leva qualquer um, não é para quem quer, é para quem merece e só leva quem é bom.

E foi assim no dia 17 de abril de 1999 seus pequenos olhos se fecharam para abrir em outro lugar. A nós a saudade, a tristeza dela não estar mais conosco. Ela nos deixa aos 57 anos. Mesmo quando aos poucos a doença lhe roubava a vida, sua fé reluzia nos seus olhos, nos seus atos, nos seus exemplos, nos seus ensinamentos, na sua dedicação, nas marcas do capiá em seus dedos quando tecia o rozário. Nunca se queixou do sofrimento. O que dizer agora? Dizer apenas da saudade que deixa, das mãos que tocavam as netas ao passear, do colo gostoso, do beijo puro, da proteção que pedia a Deus.

A ela a vida pregou muitas peças, mas com a fé que tinha conseguiu sobreviver, talvez por isso tenha ganhado um espaço no céu que talvez nunca consigamos. A sua benção tia Orzília. Parece que a vejo sacudir a cabeça em sinal de positivo dizendo “Deus te abençoe e te guarde meu filho”.

EZEQUIEL DOS SANTOS


A Central de Reservas

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