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A Central de Reservas

Gente da nossa história:
Pedro Bernardino, um homem de bem

Pedro Bernardino
Pedro Bernardino de Amorim
(1909 - 1972)

“Bom dia comadre! Vai pra Caraguá? E Então trás pra mim filé minhão (filé mignon), sapatos novos, um quarto de fazenda de Casemira Aurora (pano mais caro da época), sorvete e bastante dinheiro.” Era dessa forma, brincalhona que Pedro Bernardino de Amorim costumava brincar com quem passava em frente a sua casa a esperar a condução para ir a cidade vizinha. O primeiro choro de Pedro Bernardino de Amorim aconteceu na maranduba em 05 de julho de 1909, nasceu numa típica casa caiçara, cercada de mata e de culturas de ano inteiro. Pedro não era muito ligado ao mar como o amigo Chico Romão, mas tinha um estreito laço com a roça, com a agricultura, do que sempre sobreviveu.

Na época, mesmo não havendo grau de parentesco, todos tinham um grande respeito pelos mais velhos e com ele não foi diferente, carinhosamente o chamavam de Tio Pedro Amorim. Não diferente também eram os apelidos dos homens da casa, muitos tinham apelidos de bichos conhecidos da mata atlântica e o dele era “Zampiu”, uma ave da região. Era um homem determinado, sem preguiça, que realmente gostava do que fazia, sua visão empreendedora passava dos limites capitalistas, pois para ele antes do dinheiro vinha o ser humano, sua família. Pedro sempre foi muito alegre, porém por conta da ganância alheia esta alegria foi sumindo até que lhe pregaram uma peça, que foi fatal. Em tempos de trabalho duro, Pedro Bernardino era homem de bem, sempre tinha uma solução pacífica pra tudo.

Filho de Bernardino de Amorim e de Benedita Isaias da Conceição, agricultores humildes, como todos da época, também nasceram e viveram nesta região da caça, da pesca e principalmente da agricultura. Diziam os amigos que ele era alegre como Emidio Luiz de Deus, trabalhador como João Rosa, destemido como Chico Romão, seresteiro como Manoel Hilário e sarrista como Virgilio Lopes. Casou-se com Lurdes Cesário do Prado Amorim e com ela tiveram onze filhos: os falecidos Benedito e João e os demais Benedito (de novo), Pedro, Izabel, José, Sebastião, Bernardo, Antonio, Maria e José. Lurdes também era de família de agricultores. Como todos na época, começou cedo a lida na terra, pois era dela que tiravam o sustento e mantinham sua cultura, em suas terras se plantavam de tudo.

Sua casa era de pau-a-pique em cima do morro onde hoje é o inicio da estrada do Araribá, a casa mais próxima era a do compadre Joaquim Vieira, mais conhecido como Joaquim “Cantoneiro”, que era funcionário do DER. Na casa de Joaquim todos iam lavar os pés para pegar o ônibus para a cidade. Atrás do caminho havia um caminho ainda do período dos primeiros colonizadores, na sua entrada uma porteira, onde dá acesso ao Costão, passando pelo Sitio Recanto da Paz, subindo pela antiga propriedade do João Apolinário (uma das vistas mais bonitas da região), dali avistam todo o Sertão das Piabas, Araribá, Maranduba e o Morro do Botujuru (boca do monte, bocaina, garganta da serra).

Atrás da casa de Apolinário havia uma bica de águas cristalinas, que corriam direto da cachoeira, era um platô natural e em seguida passava a propriedade de Antonio Gonçalves (Sítio Lama Mole), beirando o Bananal do Sr. Arnaldo até a propriedade do Dito Gil, passando o rio, chegavam às propriedades de Celestino Amaro de Oliveira, Manoel Cesário do Prado, Salvador e Sebastião Jesuíno e do Benedito Peixoto onde tem seu término no Rio Araribá. Por conta dos enormes bananais, Pedro tinha muitas responsabilidades, era ele que organizava a compra e a venda das produções, seus compadres e amigos carregavam toneladas de bananas nas costas até a porteira que tinha na entrada do caminho, nesta época só um homem possui cafezal, era o compadre Mane Cezario.

Na ocasião o caminho era o único elo entre as propriedades e a estrada. A única coisa que faziam estas pessoas pararem de trabalhar era a chegada da Folia de Reis, principalmente a Pedro Bernardino de Amorim que era devoto de Nossa Senhora Aparecida. Era ele que todos os anos quando podia, alugava um caminhão pau-de-arara para levar à família e amigos à cidade de Aparecida. Nesta época de ouro da banana, era capataz de uma fazenda de bananas que ia de partes do Araribá até a Maranduba, porém em sua propriedade nunca deixava de cultivar alguma coisa. Hoje ao lado da estrada Fujio Iwai existe o que sobrou de um imponente alambique, lá também era de responsabilidade de Pedro Bernardino.

Sonhador, era esguio, sorridente e trabalhador, seu coração era maior que ele, relembra os mais antigos, pois muita gente hoje tem família graças aos empregos que ele dava nos bananais, ele sempre conseguia algum emprego para quem precisava. Na região também colhia de quase tudo, eram toneladas de mercadorias que passavam por suas mãos, era Pedro que pagava os camaradas e ninguém reclamava, todos recebiam direitinho. No caso de doença ou de precisão ia ele fazer um vale ou até mesmo emprestar algum dinheiro para que o camarada não ficasse a margem da situação. Pedro com toda esta responsabilidade sentiu a necessidade de melhor o escoamento da produção, com isto estudou uma forma de construir uma estrada para facilitar o serviço. O local próximo onde ele morava era um taboal imenso, onde as mulheres as utilizavam para fazer esteiras, no local havia muita água. Pedro saiu da sua casa no morro que lá existia para que a terra fosse retirada a fim de dar inicio a estrada, com o aterro o acesso foi tomando forma, muita gente veio ver a grande obra no taboal, muito conhecido não foi difícil conseguir uma máquina para adiantar o serviço, pois havia o grande interesse dos compradores de mercadorias da época.

Saindo dali tratou de erguer outra casa, ao mesmo tempo em que erguia a casa ele balizava o local aonde seria a estrada, seu primo Antonio Cruz de Amorim contava que eram utilizados sacos de açúcar e outros panos para o balizamento. Antonio colaborou neste trabalho. O trecho foi realizado em etapas e aproximadamente em meados dos anos sessenta ela por fim estava terminada. A supervalorização das terras dos antigos moradores, a especulação imobiliária e o cartel da “grilagem” oficial e não oficial, a simplicidade e o desconhecimento da leitura fizeram com que muitos conflitos de terras acontecessem na região, da Caçandoca até a Tabatinga, com Pedro Bernardino não foi diferente. Os conflitos, as tentativas de subtração de seus bens fizeram com que as compras diminuíssem.

Pedro se manteve forte em suas terras, enfrentou vários processos judiciais e foi ganhando todos, para sustentar os filhos teve de abandonar os bananais e tirar estacas na mata para vender, muitas vezes só saia com o café da manhã, trabalhava o dia inteiro, voltava para casa com fome e não desanimava. Jose Amorim, seu penúltimo filho conta que se lembra como se fosse hoje: “Papai já andava triste demais, e num certo sábado e eu percebi meu pai inquieto e preocupado, pois na segunda próxima ele teria de depor novamente sobre as terras que tinha herdado de seus antepassados. Papai dizia que o dinheiro agora não valia nada, não dava para nada, tanta coisa para pagar e o dinheiro não vale mais nada, o importante e ter a terra, ela sim tem muito valor”, termina o filho.

Contam que Pedro cansado, depois de uma manhã inteira tirando estacas na mata para vender aos japoneses, pegou uma sacola e foi fazer compras na Maranduba, no armazém do Ângelo Zacarias, por volta das quatro horas da tarde, na vinda para o Araribá o acompanhava o amigo Benjamim da Caçandoca, do outro lado da Rodovia Rio – Santos (ainda de terra) o Joaquim Vieira (treinador do time de futebol da Maranduba), ali nas proximidades da casa do Avelino, foi quando uns cem metros atrás de Pedro, vinha em alta velocidade um carro vermelho, um Dodge Dart, avançou e atropelou apenas Pedro, o Benjamim ficou em estado de choque pois estava colado ao Pedro. Pedro foi airado longe e no desespero ninguém consegui anotar a placa do carro. Seu Avelino contava que o camarada que atropelou, parou um pouco a frente de Pedro, colocou a cabeça para o lado de fora e soltou uma gargalhada. Pedro tinha ainda nas mãos as balas que levaria a filha mais nova Izabel. Um senhor desconhecido que passava pela estrada rapidamente o socorreu, levando Pedro a Santa Casa de Caraguatatuba. Á noite a notícia, Pedro não suportou a tantos ferimentos e havia partido, era 1972. Sem Pedro a família perdeu as terras, os costumes, as tradições, a cultura, a terra para a família tinha outro valor, não o financeiro. Pedro ainda havia trabalhado em uma olaria tocado a burro que fornecia tijolos e telhas a capital. Teve um alambique em parceria com o Mesquita, era homem brincalhão, homem que não media esforços para ajudar, cansou de buscar remédios em Caraguatatuba para os outros pagos com seu dinheiro.

Pedro ainda havia tentado montar um armazém em sua casa, existiam mantimentos inéditos para a época, como as sacolas de náilon, lingüiça defumada, melancia e lanternas. Pedro também havia achado pedaços de vasos, ferramentas de pedra e muito carvão enterrado onde hoje se encontram as casas dos Gil. Pedro Bernardino se foi, deixa saudades até hoje quando de fala de Tio Pedro Amorim, principalmente em saber da forma que ele foi, pois era um homem de bem e que tinha muita coisa para ensinar e muitos sorrisos ainda para oferecer. Seu nome figura na estrada Municipal do Araribá, infelizmente não tem uma placa em respeito a sua vida e o que ele representou para a toda uma geração foi testemunha da vida de um homem de bem.

EZEQUIEL DOS SANTOS


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