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Caçandoca: belezas naturais e história num só lugar
Praia da Caçandoca
O belo cenário da Caçandoca encobre muito sofrimento e trabalho árduo dos escravos

Partindo da Rodovia Manoel Hipólito (SP- 55), na Maranduba, num trecho de três quilômetros em direção a barra do rio Maranduba, o visitante deve saber que a estrada em seu início era parte do trecho da rodovia que ligava Caraguatatuba a Ubatuba, havia uma ponte de madeira e antes dela o Hotel Picaré, o primeiro da região. À frente temos belas imagens do rio que encontra o mar, lá vemos pescadores realizando a manutenção de seus barcos, lanchas e por vezes algum peixe pulando sobre as águas. Vemos ainda muitos pescadores de final de semana, num relaxante encontro com a natureza. Antes da subida, existem casas dos descentes de Francisco Lopes de Araújo, mais conhecido como Chico Romão, patrimônio da localidade. Seguindo o trecho temos o cemitério da Caçandoca, lá estão sepultados os descobridores de toda a região. O cemitério é considerado um dos mais antigos do litoral norte paulista, mas o Sr. Fidencio Zacarias, 103, nos revela que aquele ainda é novo, segundo ele um pouco mais acima já existia outro cemitério, que depois foi mudado para o atual.

Um pouco mais acima temos a visão de toda a baía da Maranduba, lá podemos ver as ilhas, as praias e toda a enseada. O local poderia ser feito um belvedere, ponto de parada obrigatório para fotos e descanso. A imagem que se tem do lugar é tão bela que parece ser possível tocar com o dedo em toda sua extensão. Não, não estamos falando de nenhum roteiro de produção cinematográfica ou documentária, trata-se apenas da beleza nua e crua da região.

A frente, antes da entrada da Praia do Pulso, temos uma construção que parece um castelo medieval europeu, é patrimônio da Sunrise Holmes e não é aberto a visitação, entre a guarita do pulso e o castelo existe uma trilha, que foi mudada por conta das obras.Da trilha é possível avistar a ilha Anchieta, a do Mar Virado a do Tamerão, o mar de fora, como dizem os pescadores e abaixo a praia do Pulso, muito bem guardada por vigilantes particulares. Possível ver ainda a fazenda de mexilhão do Sr. Antonio Antunes.

Voltando a estrada descobrimos um pequena bica para abastecer os cantis. A frente é possível ver o que foi uma pedreira, usada para abrir a estrada. A vegetação ainda vislumbra os observadores de pássaros e da flora, bromélias e caraguatás se fazem presentes em todo o trecho. Onde a especulação imobiliária não deformou a mata, pode-se diferenciar o tipo de floresta e toda a biodiversidade nela existente. Por entre as laterais da estrada podemos ver trilhas, que outrora foram de caça e estradas da praia aos sertões que seguem mato adentro, utilizadas hoje pelos funcionários da Sucen. Supersticiosos dizem que ouvem os gritos dos escravos que lá trabalhavam. Na descida já é possível ver algumas casas e uma outra estrada à direita, passando pela sede da ARCQC (Associação dos Remanescentes da Comunidade do Quilombo da Caçandoca).


Visualizar Praia da Caçandoca em um mapa maior

Atrás da sede, no rio que deságua no mar, um poço de meia profundidade atrai a todos para um relaxante mergulho. As trilhas lá existentes nos levam as casas por entre a mata, muitas destas têm origem ainda no auge da fazenda e esconde muitas histórias e mistérios. A floresta para as comunidades negras, indígenas e tradicionais é considerada extensão de seu corpo, as pessoas se sentem mais humanas, mas próximas de suas divindades e mais preparadas para a vida, além de manterem seu elo com o passado e aprendizado para o futuro, mantendo reciclado seu etnoconhecimento, é um caso de paixão natural. O local já foi visitado por várias autoridades federais, estadual e municipal.

A continuidade do trecho parece ser de fazenda do interior, a frente se dá o encontro da praia que tem o nome da fazenda. Em seu canto esquerdo, canto bravo, o turista pode ver uma loja de artesanatos locais: palha, fibra de bananeiras, conchas, madeira, indispensável é a bica de água doce próximo a lojinha. No final do trecho, a praia, no seu canto esquerdo o final da trilha por quem desceu entre a guarita do Pulso e do castelo, lá também tem uma bica de água puríssima da serra. Os quiosques oferecem os mais variados pratos de praia, também é possível realizar passeios de banana boat, barcos de pesca, caiaques. As árvores a beira mar oferecem sombra. O balé das ondas é espetacular, a água por vezes quente, por vezes mais fria não deixa de oferecer um relaxante descanso para o corpo e para alma.

A frente, do lado direito da praia uma capela construída pelos descendentes dos quilombolas. Atrás da capela, voltando existe uma unidade escolar, em seguida a esquerda um acesso que vai em direção a mata, lá está a sede da Associação dos Remanescentes do Quilombo da Caçandoquinha, Raposa, Saco das Bananas e Frade. Mais a frente, na praia, avistamos a barra do rio, que oferece descanso e divertimento principalmente as crianças. No entorno, entre as árvores, lugar propicio para um cochilo e descanso, estas arvores parecem que foram plantadas de propósito, assemelham-se a enormes guarda-sóis que nos abrigam do sol forte e do vento. A pedra do outro lado da barra do rio nos leva a praia da Caçandoquinha e continuando a trilha chegamos a Tabatinga, divisa com o município de Caraguatatuba.

No meio, entre a praia e a estrada é possível avistar ninhos de coruja e outras aves. Mas de onde veio nome Caçandoca (com dois “s” ou com “ç”), segundo estudiosos, apesar de ter relacionamento a palavra casa, devido ao sufixo “oca” (casa em tupi-guarani), significa “gabão do mato” numa referencia ao país do centro-oeste africano, o Gabão. No caso da Caçandoca, a comunidade limpa e preserva para que o visitante tenha um lugar mais agradável, o lugar não possui coleta de lixo, os moradores é quem fazem o serviço. Agora você conhece mais um ponto de visitação deste paraíso, cuide bem deste patrimônio e não deixe lixo no lugar. Paraíso não combina com desrespeito e sujeira.

História de sofrimento, lutas e conquistas no litoral paulista

Visa do mirante
Vista de parte da baia da Maranduba a partir do mirante existente na estrada da Caçandoca

A escravidão dos negros no Brasil, durou mais de 300 anos. Durante este período houve resistência, os que fugiam formavam os mocambos ou quilombos como são mais conhecidos. A escravidão só teve fim no ano de 1888, mas muito tempo antes os negros já lutavam por sua liberdade. Depois da fuga foi preciso aprender a viver em comunidade na mata desconhecida, enfrentar diversas expedições de recaptura e morte de negros. A luta foi árdua, mas foi vencida, é esta a parte da história e da herança passada de pai para filho, netos e bisnetos, a história dos remanescentes de quilombos, como é no caso da antiga Fazenda Caçandoca.

Ao que se sabe Carlos Grace, um londrino branquelo chegou a estas paragens em 1818. O imigrante teve como ocupação inicial ser lavrador proprietário desta fazenda e consta em arquivos que teve terras adquiridas na 2ª. Companhia das Ordenanças que englobava os bairros das Toninhas, Ilha dos Porcos, Flamengo, Fortaleza, Lagoinha Cassandoca (isto mesmo com dois “s”, assim que se escrevia na época), Ribeira, Rio das Ostras e Brejahimirinduba.

O crescimento da mão de obra escrava aumentou a partir de 1830 e em 1836, dos quatro maiores senhores de escravos da vila de Ubatuba, três eram imigrantes. Embora a tentativa de extinguir a escravidão fosse através da Lei Euzébio de Queiroz em 1850, percebe-se que antes disso (1833-34) as autoridades do Governo de São Paulo já determinavam severas ordens contra o trafico negreiro. Mesmo assim o comércio clandestino continuou estendendo-se por muito tempo depois. Os negros desembarcavam nas praias afastadas do centro da vila, uma delas foi a Cassandoca (com dois “s”). Lugares propícios para subir com os negros por entre a mata até o planalto, na região sul existem ainda dois caminhos originais ainda deste período.

O que sabemos é que tudo começou com os tataravós dos remanescentes do quilombo que lá existe, por volta de 1855 onde estes primeiros construíram a fazenda com suor, sangue e lágrimas sobre os olhares do Senhor José Antunes de Sá. A fazenda tinha uma casa sede e um engenho, sendo dividida em três núcleos administrativos, cada um administrado por um filho de José Antunes: Isídio, Marcolino e Simphonio Antunes de Sá. Isidio era o mais temido e carrasco dos filhos.
Certa vez, na Praia da Lagoinha Isidio viu os negros da fazenda Bom Descanso passarem a rede como era de costume, capturaram uma quantia considerável de peixes, então Isidio ordenou que um dos escravos o desse alguns pescados, que foi negado pelo escravo, os peixes seriam para o nosso senhor, se referiam ao Capitão Romualdo, dono da fazenda na Lagoinha. Irritado, pois nunca havia sido contrariado, foi até o capitão para lhe oferecer rios de dinheiro pelos escravos pescadores, o que também foi negado. Furioso voltou à praia e disse aos negros que a sorte era o Capitão Romualdo, pois desejava levá-los a Cassandoca para matar a todos. Os filhos de José Antunes tiveram vários filhos bastardos, além dos legítimos filhos, de casamentos com mulheres brancas. Com o falecimento do pai em 1881, o filho Izidio Antunes de Sá casou-se com uma escrava de nome Tomázia e alforriou seus escravos doando a terra, não só na palavra, mas com documentos comprobatórios. A fazenda produzia café e aguardente de cana, ela foi desmembrada no ano da morte do seu feitor, data do primeiro inventário do local. Os ex-escravos deram origem as famílias que hoje formam o quilombo Caçandoca. O quilombo da Caçandoca foi reconhecido, em laudo antropológico em 2000, mas as atividades são ainda do período militar, onde, por conta da especulação imobiliária e a construção da rodovia federal inflamou a cobiça de poderosos. Muitos invadiram o local de forma violenta e traiçoeira, destruíram a casa de farinha, incendiaram casas, destruíram roças e ruínas, queimaram documentos tentando apagar da memória a história de luta e conquistas. Muitos outros detalhes de covardia merecem ser retratados em filme ou em um livro, já que tamanha covardia não caberia nas páginas deste periódico.
Hoje os 890 hectares foram reconhecidos com área dos remanescentes, filhos, netos e bisnetos de quem escreveu esta história com sangue. O quilombo da Caçandoca é mais antigo do litoral norte e encontra-se num dos lugares mais belos do Brasil. Em visita ao quilombo, o ex-governador Geraldo Alckmin se espantou com tanta beleza. “Nunca tinha visto um lugar tão bonito quanto este”, comentou o ex-governador.

A cultura caiçara do litoral norte preserva varias tradições africanas, neste universo, a cultura da região só enriqueceu e é proveniente da cultura banto, negros vindos da região centro ocidental do continente africano como Angola, Congo, Gabão, Zaire e Moçambique. O negro banto era prisioneiro preferido dos traficantes de escravos, já que eles detinham várias técnicas de agricultura, com experiências no cultivo do café e da cana-de-açúcar, caracterizada pelo espírito agrário e religioso que protege e defende a vida humana em todos os sentidos. Na cultura banto, um negro sem a comunidade, transforma-se num ser sem vitalidade, o individuo sempre se afirma a partir da comunidade: “Pertenço, logo sou”. Daí o grande principio da cultura banto: “Eu sou porque vós sois, e porque vós sois, eu sou.” Trata-se da auto-pertencença.

Embora existam desentendimentos entre as duas associações que os representam, a história de luta e resistência destas pessoas não limita fronteiras e graças a este espírito de luta que surgiram mais quilombos como a do Cambury, da Fazenda da Caixa e da Casanga, que realmente faziam parte de nossa história. Basta agora o entendimento entre as associações para a aplicação das melhorias a todos e a preservação real e necessária da cultura quilombola na região. Precisamos da vitalidade desta história para continuar existindo como um povo que fez, que faz e fará história neste rico pedaço de chão brasileiro.

EZEQUIEL DOS SANTOS

Panorama of Praia da Ca�andoca supplied by Panoramic Earth


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